ANACLETO E OS DIABOS

 

              Próximo à entrada de um extenso deserto vivia um senhor já de uns setenta anos, solteiro e sedentário, que tinha uma ferraria, onde trabalhava.

 

           A cidadezinha mais próxima da ferraria estava a uns seis quilômetros. O ferreiro, de nome Anacleto Quiroga Facundo, era procurado por viajantes a cavalo pois fazia excelentes ferraduras.

 

           Vivia isolado, sem vizinhos porque achava que o mundo à sua volta era demasiadamente explorado por todo tipo de contraventores.

 

                   Certo dia apareceram na ferraria, dois homens montados em mulas, e, após cumprimentarem o ferreiro, um deles pediu para colocar uma ferradura em uma das mulas, pois a mesma havia soltado.

 

            ­­– Não sei se posso ajudá-lo, respondeu o velho ferreiro. Em seguida viu uma argola de prata bastante grande. Fez uma ferradura com ela e colocou na pata da mula.

 

                   - Quanto te devemos, bom homem? Anacleto olhou-os bem e disse – vejo que são pobres, como eu, não quero nada, podem ir embora.

 

             O homem, em cuja mula tinha colocado a ferradura de prata, disse ao ferreiro:  Meu nome é Gabriel e viajo em companhia de Miguel, como anjos de Deus e concederemos ao senhor três desejos, por ter sido tolerante e bondoso.

 

                   O ferreiro começou a rir pois lhe pareceu uma brincadeira, mas aceitou-a para se distrair. Pois bem, como primeiro desejo gostaria que todo indivíduo que se sentar em minha cadeira não possa levantar-se dela até que eu ordene.

 

               Concedido, e qual o segundo? Anacleto, rindo, disse:  Quero que aquele que subir em minhas árvores não possa descer sem que eu ordene. Concedido, disse Gabriel e o terceiro e último desejo? – Quero que aquele que entre em minha tabaqueira não possa sair sem que eu permita. 

 

                    Concedido, falou Gabriel que depois de despedir-se partiu em companhia de Miguel.

 

                 Anacleto ao ver-se sozinho e ainda rindo, pensou que não havia pedido boas coisas e disse em voz alta: - Se   agora mesmo chegar aqui o Diabo, lhe darei minha alma em troca de vinte anos de vida.

 

                 Nesse momento chegou à porta da ferraria, um homem bem trajado que disse – Eu te darei o que pedir, Sr. Anacleto, aqui tem um contrato, é só assinar, e terá vinte anos a menos. Após o homem se identificar como o Diabo, ambos assinaram o contrato.

 

                   Quando o Diabo foi embora, Anacleto viu-se mais jovem e com dinheiro, pois o demônio deixou uma caixa com muito ouro.

 

            Anacleto Quiroga Facundo, pegou o ouro e percebeu que estava mais jovem. Dirigiu-se ao povoado e comprou roupas; comeu como um nobre e conheceu lindas mulheres.

         

             Conheceu também pessoas importantes, viajou por muitos lugares. Voltando, reformou a ferraria introduzindo grandes mudanças.

 

             Após os vinte anos, foi visitado pelo Diabo, na forma de mulher chamada Lilith e por dois assistentes. Era o momento de levar a alma de Anacleto. Este respondeu que iria lavar-se e vestir boa roupa para ir ao Inferno.

 

             Enquanto isso disse aos diabos que ficassem à vontade.  Lilith sentou-se na cadeira e os assistentes foram ao quintal e subiram na árvore de peras e começaram a comer.

 

                    Anacleto disse:  Estou pronto, podemos ir. Porém, Lilith não podia sair da cadeira e os outros diabos não conseguiram descer da pereira.

 

                      - Vamos fazer novo trato, disse o ferreiro: peço que vocês se transformem em um só e tenha a forma de formiga. Os diabos, loucos para sair da cadeira encantada e da árvore, concordaram.

 

            Rapidamente o ferreiro agarrou a formiga e colocou-a na tabaqueira e ali o Diabo e seus assistentes ficaram presos.

 

             Por essa razão não houve mais brigas ou despeitas no povoado e no mundo. Maridos não golpeavam suas mulheres; mães não batiam ou repreendiam seus filhos; os enfermos foram curados; os velhos não morriam a até os cães e animais selvagens se tornaram dóceis.

 

                  Bom demais. Porém, não fiquemos contentes. O que aconteceu foi que Advogados, Médicos, curandeiros e todos aqueles que vivem da desgraça dos outros, começaram a passar fome.

 

                   Passados alguns meses, foram todos pedir ajuda ao governador da região. Informaram a ele que o ferreiro Anacleto havia prendidos os diabos na tabaqueira.

 

                   O governador chamou o ferreiro a seu gabinete e lhe disse: deixe as coisas como estavam. O mundo necessita que os diabos andem pela terra, porque os homens que vivem das desgraças são muitos.  Vá e tire os diabos de sua tabaqueira e solte-os.

 

                     Anacleto percebeu que o governador tinha razão e correu para soltar os diabos. Ademais ele já estava velho e cansado do mundo, não lhe importando a morte.

 

                 Ao chegar à oficina, deu uns golpes na tabaqueira e perguntou aos diabos: - Se eu os deixar livres, vão voltar por aqui? – Não, não! Anacleto abriu a tabaqueira e os diabos saíram correndo.

 

                    Desde então, miséria, pobreza, assassinatos e outros males são coisas deste mundo e nunca desaparecerão, porque em nenhum outro lugar do universo serão acolhidas.     

 

Zerimar Oilec

São Paulo, 5 de julho de 2020

São Paulo - SP