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Crônica

   
O DONO DO RELÓGIO
Antonio Contente
         Quando eu ainda estava no começo da carreira, meio foca, rondei um tempo pela reportagem policial. Este aprendizado magnífico ocorreu na época em que no Pátio do Colégio, onde a cidade de São Paulo nasceu, havia uma delegacia. Foi num plantão noturno que o lendário Cabral Júnior, um dos mais estrelados repórteres de polícia da época, ficou meu amigo. E tanto que, de vez em quando, íamos derrubar umas cervejinhas num daqueles botecos mais ou menos sórdidos no entorno da Praça da Sé. Certa ocasião, como ele, mais velho, achava que eu levava jeito para escrever, me contou estar colecionando, para um livro, casos meio pitorescos de adultérios. Que terminavam, invariavelmente, diante de delegados. E narrou a história de um viajante, se bem lembro, chamado Alaor Siqueira.               

           Tudo começou quando tal cidadão, de 50 anos, chegou de mais uma de suas viagens. Entrou em casa, resvalou o tradicional beijinho no rosto da esposa de 20 anos, e se enfiou num denso banho. Uma hora depois, já de roupa mudada, abre a gaveta do criado-mudo para apanhar alguma coisa quando dá de cara com um relógio de pulso, masculino. Examina a peça revirando-a entre os dedos, para concluir que não era sua. Vai à cara-metade.

          --- Querida – começa – estou intrigado.

         --- Intrigado? – Ela levanta as sobrancelhas.

         --- Veja – o fulano mostra – encontrei isso no nosso criado-mudo.

         --- Ué – a moça não se altera – é um relógio.          

         --- Perfeitamente – vem a confirmação – um relógio de homem.

         --- Você comprou lá em Garça, de onde acaba de chegar?

         --- Negativo, querida, não é meu. E, como lhe disse, encontrei no criado-mudo do nosso quarto, ao lado da cama.

         --- Um relógio de homem no criado-mudo? – A moça coça a ponta do nariz.

         --- Exatamente. E como esse tipo de mecanismo, fabricado com muito esmero pelos suíços, que são uns craques no setor, não têm pernas, suponho que não chegou ao nosso quarto andando.

         --- O que você está querendo insinuar, Alaor?

         --- Na realidade – ele suspira – nem sei se estou insinuando algo. Quem sabe você me explica como esse relógio foi parar lá onde o encontrei.

         --- Francamente, não sei do que você está falando.

         --- Você sabe sim, e eu desejo saber tudo. Com riqueza de detalhes.

         O problema, afinal, se resumia no seguinte: a aparentemente santa mocinha tinha, de fato, culpa no cartório. Pois mal o marido saia por uma porta para as suas constantes viagens, pela outra entrava o amante. Que usufruía, como é praxe em tais situações, não apenas dos favores amorosos da beldade; mas também da maciez, chamativa ao sono que segue os cansaços d'amor com um cigarro depois, da ampla cama de casal. E tudo, talvez, seguisse sem problemas, "per omnia saeculum, saeculorum", não fosse o fato do guapo rapaz ter esquecido o tal relógio, provavelmente numa saída apressada ante algum rumor suspeito.

         Colocado o dilema, o até então paciente marido depositou o achado sobre um móvel e apontou:

         --- Essa máquina, que não é nenhum Patek Phillipe, vai ficar aí marcando as horas. Quando se passarem 24 delas, quero uma explicação.

         Assim que se viu sozinha, nossa heroína concluiu que se achava numa situação difícil. Durante a primeira hora, rapidamente esgotada, ficou imaginando de que jeito sairia daquela. Súbito, dá um grito na base do "por que não pensei nisso antes"? Trocou de roupa rapidamente e foi para a casa de uma amiga que morava ali mesmo no bairro.

         --- Querida – começa – queria merecer um grande favor teu.

         --- Ora, se eu puder... – A outra levanta as sobrancelhas.

         --- Acho que poderá. E como somos amigas faz tanto tempo...

         Daí em diante juntou palavras, armou seguras frases de efeito. Afinal, pronto o prólogo, abre o jogo:

         --- O problema é que, de fato, tenho um amante.

         Na continuação, jorrou tudo, tim-tim por tim-tim. Para arrematar com o que realmente precisava.

         --- Como você é solteira e mora com sua mãe, vou dizer ao meu marido que te emprestei a casa para um encontro, e teu namorado esqueceu o relógio lá.

         A fulana, diante da história, coça a cabeça. E acaba gemendo um vago "acho que não vai dar". Diante disso, a desesperada insiste, até que a amiga também resolve abrir o jogo.

         --- Olha, não posso falar isso porque nos últimos dias estava em Garça, viajando com ele.

         --- Com quem?

         --- Com teu marido!

         Foi assim que a violenta briga entre as mulheres acabou na delegacia do Pátio do Colégio, com o viajante arrolado e levado, meio atônito, para diante das autoridades policiais; com a cabeça ainda a sagrar de uma cinzeirada que nela levou. Após ouvir a história que o experiente jornalista me contou, busquei sanar uma curiosidade:

         --- Mas e o dono do relógio? A meu ver, trata-se de personagem importantíssimo nessa história.

          --- Pois é, também acho – Cabral Júnior terminou – só que o irresistível galã nunca, jamais, em tempo algum apareceu...

O pátio em 1862
Pátio do Colégio atual
 
 
Crônicas anteriores
O Dono do Relõgio - A crônica do Dr. Paulo Eduardo

 

 

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Obra de autoria do Dr. José Guilherme Raymundo, Delegado de Polícia aposentado, sócio da IPA, ex-Inspetor da Guarda Civil do Estado de São Paulo, ex-Inspetor Chefe de Agrupamento da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo e ex-Comandante da Guarda Civil de Guarulhos.

No livro o autor presta uma justa homenagem às Guardas Civis Municipais do Brasil, corporações que a cada dia conquistam a admiração e o respeito do povo brasileiro.